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CYNTHIA LENNON – O DIA QUE A FICHA CAIU




Cynthia Lennon, a própria, contando em seu livro “John” de 2009, como foi o fatídico episódio.

CYNTHIA LENNON – O DIA QUE A FICHA CAIU



Exatamente há 46 anos, no dia 20 de maio de 1968, Cynthia Lennon chega de volta em sua casa e encontra o marido John Lennon e uma japonesa pequenina com um ar arrogante de roupão tomando café na cozinha.




O que eu ainda não havia percebido era que a história de John, sua atitude em relação ao casamento e à família eram muito diferentes do meu caso. Ele praticamente nunca tinha visto seus pais juntos: aos 5 anos de idade havia sido abandonado pelo pai — e, ao menos na prática, pela mãe também. O seu próprio pai sofrera da mesma forma. Considerando com que frequência e como costumamos fantasticamente repetir os padrões dos nossos pais, eu deveria, talvez, estar mais preparada para que John abandonasse o seu próprio casamento e seu filho de 5 anos de idade. Contudo, eu era jovem demais, inexperiente demais e otimista demais para considerar isso seriamente. Na viagem para casa, o nosso avião parou em Roma e almoçarnos. Não seria ótimo terminar o dia com um jantar em Londres, depois de ter tomado o café da manhã na Grécia e almoçado em Roma? Nós rimos. — Vamos buscar John para juntar-se a nós — Alex sugeriu que eu lhe telefonasse para avisar que estávamos voltando. Eu falei com ele rapidamente: — Oi, querido, eu já estou chegando. Mal posso esperar para encontrar você. A resposta de John pareceu normal: — Ótimo, vejo você mais tarde. Donovan e Gypsy foram para casa, mas Jennie e Alex vieram comigo até Kenwood para vermos se John gostaria de jantar fora conosco. Nós chegamos às 4 horas da tarde, e eu percebi imediatamente que algo estava errado: a luz da varanda estava acesa, as cortinas ainda estavam fechadas e tudo estava em silêncio. Dot não veio me receber, Julian não apareceu correndo, gritando de felicidade, para me abraçar. O que estava acontecendo? A porta da frente não estava trancada. Nós três entramos e começamos a procurar por John, Julian e Dot. — Onde vocês estão? — eu gritei, ainda esperando que eles surgissem de trás de alguma porta, rindo da peça que haviam pregado em mim. Quando coloquei a mão na porta do solário, tive um súbito tremor de medo. Hesitei por um segundo, depois abri. Dentro da sala, as cortinas estavam fechadas e o ambiente estava na penumbra, de forma que levou um instante para que a minha visão se acostumasse. Quando isso aconteceu, eu congelei. John e Yoko estavam sentados no chão, com as pernas cruzadas e olhando um para o outro perto de uma mesa coberta de pratos sujos. Eles estavam usando os roupões atoalhados que mantínhamos na cabina perto da piscina, então imaginei que haviam dado um mergulho. John olhou para mim sem nenhuma expressão no rosto e disse: — Ah, oi. Yoko não se virou. Eu disse a única coisa em que pude pensar: — Nós pensamos que seria legal jantar em Londres depois de termos almoçado em Roma e tomado café da manhã na Grécia. Você quer vir conosco? A sensação de estupidez dessa pergunta não me deixou em paz desde então. Ao confrontar meu marido com sua amante — que estava usando o meu roupão —, me comportando como se eu fosse a intrusa, a única coisa que pude fazer foi agir como se nada houvesse acontecido. Na verdade, eu estava em choque, e deixei que uma espécie de piloto automático assumisse o controle. Não fazia ideia de como reagir. Estava claro que eles haviam planejado tudo para que eu os encontrasse daquela forma, e era difícil absorver a crueldade da traição de John. A intimidade que pairava entre os dois era assustadora. Senti que existia uma muralha ao redor deles que eu não podia ultrapassar. Nos meus piores pesadelos com Yoko eu nunca imaginara nada como aquilo. Enquanto eu estava parada na porta, como se houvesse criado raízes por causa do choque e da dor que estava sentindo, John disse, indiferentemente: — Não, obrigado. Eu me virei e simplesmente fugi dali.


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